Cais da Língua

Ainda que triste sinto com frieza o vento passear por meu rosto. Consigo foi minha esperança e contigo veio minha tão merecida calma. Ainda dói ver o que em mim já é passado, ainda pula no meu peito aquele resto seu e vai continuar pulando até que você venha e o pare. Daqui a poucos dias será um novo ano, mas quase tudo em mim continua velho. Quem dera ter com força aquela antiga esperança, quem dera ter com força sua presença. Logo a mim que sempre fui tão sereno, o destino inventou de me testar. Logo eu que sempre senti ao máximo a diferença. Ta tudo passando e misturando, agora não sei mais quem passou e quem é pedra. A boca que tanto supliquei e a que me suplica são uma coisa só. Como pode meu Deus fazer isso? A culpa disso tudo não é minha, não sou réu e meu chão não é céu. Tudo queimando em mim.E cansado de mim registro tudo pra um dia ver que vivi, que toquei a vida sem luvas, sem capas e vi a morte sentar-se ao meu lado pedindo um pouco de paz.


ps. nem sabia da existência desse texto. :p

Marcadores: 7 comentários | edit post
Cais da Língua

Antes que me permita
Antes que mal digas a hora prevista
Deixe-me ver por outros olhos
Por outros meios
O gosto de um pouco mais de vida, querida

Sendo inevitável sua visita
Vista-me
Não quero feridas

Nem quero saudades
Na verdade eu nem te quero

Mas já que é insistente e muito certa
Leve-me com cautela
Seja lá pra onde for
Já que o caso é levar
Já que o caso é partir
Que me partam os raios
Lua
Cais da Língua

Não quero ser pra você uma fase como dessas da lua. Quero ser sua ferida aberta. Deixar cicatriz e de preferência nunca cicatrizar, não para causar dor, mas sim prazer, que por Deus, só vivendo pra sentir.
Te fiz chorar hoje, perdão. Atrás de minha palavra rouca e firme é que está toda a doçura que só você consegue ter e ser.

Formou-se sobre todas as águas, todos os tempos a sombra da suprema felicidade. É como se eu estivesse puro, no tal estado agudo de felicidade. Se inventarem amor maior que o seu é porque não existirá mais amor. E é de amor que você vai morrer, de mãos dadas a mim, a Deus e aos filhos que nunca poderei te dar.

Era pra ser daquele jeito, da vulgaridade nasceu isso, e feliz daquele que tiver um amor vulgar e cru.

O amor começando da própria raiz é singularmente vulgar. Vulgar mesmo é quem nunca amou e se embrutece com isso.

Eu estou feliz e irei amar mais do que posso, pra aproveitar ao talo o prazer. Andar por todas as montanhas e do bem alto cair, pra na queda encontrar o ápice de tudo, o começo de tudo, sem qualquer lógica e esquecimento.

Marcadores: 4 comentários | edit post
Cais da Língua

Sem nexo e nada anexo
Parti para cidadezinha

Mão atadas
Olhos vedados
Água salgada
Circo armado

A rosa branca beirava o mar
Nossa transa beirava o mar
As oferendas beiravam o mar
Já o mar nada beirava

Parado fiquei entre mim e você
Entre a misericórdia e a solidão
Entre nós e o não existirmos
Assim pude ficar
Não mais que caído
No seu peito maciço
No seu corpo dourado
No seu braço flechado
Apenas meu rosto parado
Debruçado
Recortado
Nem por tesouras nem por quadrados
Nem por marujos nem por soldados

E Deus riu

O menino acendeu o cigarro
E perguntou aquilo
Respondi quase calado:
-Quantos amigos?
Marcadores: 9 comentários | edit post
Cais da Língua

Quase me despedi para sempre
Eram tristes e realizados seus olhos, já os meus eram cegos e enganados
Foi ali mesmo entre os batentes da rodoviária que aprendi a ser único e só
Aprendi que você não é Deus e eu não sou o cão
Simplesmente passei a crer que minha vida não passa de um rosto
Fiz como Iemanjá e devolvi todos os presentes
Negando seu pedido mudo de perdão
Marcadores: 3 comentários | edit post
Cais da Língua


Como se num lapso despertasse
Passei a ver morte nos olhos viris
Nos olhos viris vi até mesmo meus olhos
Meus lábios e meu respeito
Vi a sombra suplicar calor
E hei de ver a mudança da muda
Pra rua da esquina
Pro quinto dos infernos

Passei a sonhar o que em mim era sonho
Despertei o sonho em mim
Não sendo infinito
Caí em desordem
E por mim que não levante.
Cais da Língua

Resolvi sair de preto hoje
Sem as armas de Jorge
Sem as malas de Bete
Com as relíquias no peito
Preto-lembrança
preto-saudade
Preto-verdade

Tudo passado púrpura
Marcadores: 8 comentários | edit post