Cais da Língua

Hoje soube algo e isso me inquietou com sofreguidão. Infelizmente descobri que a felicidade alheia depende da derrota dos outros. Sou amado e amo como resposta, mas para o resto isso dói e causa vontade de ser. Ser o que não é e assim por diante acabar. Nosso amor dura e vai durar, se acabar é porque atingiu o êxtase máximo e não pode prosseguir. Seremos amigos pra matar vontade, pra deixar saudade e sufocar o riso, aquele que damos nas conversas cheias de verdade. Relembrar a nostalgia boa, passar o tempo sem fazer nada e ficar com vontade de voltá-lo pra nunca mais acabar o amor que as vezes é passageiro. Que nossas almas se visgem, se amarrotem e criem calos, pra não soltar, pra não fugir, pra matar de amor o amor. Que o nosso coração se rompa de coisa boa, que a minha saúde seja a tua, que você viva pra contar aos filhos que um dia já amou e fez o mais espetaculoso espetáculo: o de me fazer amar outra vez!
Você deu dentes a minha alma e assim ela mesma sorriu, fazendo força pra esbagaçar o rancor. E já não me importa o que dizem, porque o que menos procuro é o que mais acho; o teu silêncio dizendo nas mãos que me ama, e nas pontas dos dedos trêmulas, a resposta pra todas as perguntas.
Como duas coisas que não se separam, estamos nós- tontos de amor no frio do inverno.


Texto antigo mas que tem um significado enorme pra mim.
Cais da Língua

Já me basta esta sensação de fim

Este suposto sossego

Essa dor no peito

Eu quero sair

Correr pro leito

Do rio

Eu quero fugir da morte

Investigar se Deus existe

E quem quiser que me julgue incrédulo

Ou ateu

Só sei que sou poeta

E definitivamente

Não nasci pra morrer

Cais da Língua


Para o Cão, Deus

Para o colchão, um corpo

Para o alvoroço, polícia

Para a vida, perdão

Para o bordão, comédia

Para o charlatão, cadeia

Para a ceia, peru

Para a velha, dentadura

Para a criança, brinquedo

Para o dedo, unha

Para o quinto dos infernos,

Você e as perguntas.


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Cais da Língua

Um jazz não me cala mais a boca

Nem uma dose de cachaça me solta à língua

Mainha disse: vai-te querido

Ainda que triste

Diz que não foi por mal

Nem que seja fatal, essa tal acusação

Diz que não é a pedra surda que rolava

Nem aquela suja, que perambulava

Diz que eu não fui te ajudar

Porque cansada estou

Da vida, das feridas

Da esquina que me faz passar

Pela força de vencer

Seja de dia ou noite

Não quero oferecer

Mandinga pra orixá

Nem comida pro ifá

Não quero me perder

Ainda que venha há morrer um dia

Saiba que fui feliz

Não triste, apesar de fria

Saiba que amei tudo como se fosse um só

Um só calo, um só peito

Meu Deus! exige-me respeito

Por não ter nascido rica

Nem por ter morrido pobre

Mas por ter nas mãos

Mas por ter na alma

Aquela enorme desgraça

De ser Tua

De ser uma

A vagar pelas ruas do Pelourinho

Negra

Apática por ser negra

Simpática

Estatelada com tanta bagunça

Tanto alvoroço

Tanta macumba num só pescoço

Dar-nos Paz, meu Pai

Um pouco mais

Pra dar tempo de tirar um cochilo

Sem que venha ser rasgada por um tiro

Ou acorde viúva ou aleijada por ter perdido

Algum de meus filhos

A parte mais interna de meu infinito

E tenha que agüentar

Sem ao menos um canto negro

O soluçar do meu chorar

A peste negra

O eclipse maldito

Aquele erudito a resmungar

Por ter nascido

E eu que hei de segurar

A triste tarefa de não mais aquecer

Aquele menino

Que um dia peguei no colo

Num simples gesto de amar

Cais da Língua

Ela esperava na esquina o próximo cliente. Na esquina mesmo lembrava-se que ser puta não iria levá-la a lugar nenhum. Nesses momentos de inquietação era quando iniciava sua conversa com Deus, com o pensamento seco dizia a Ele que no pecado era que se sentia verdadeiramente mulher. Não importava mais se disputava homens com travestis, queria era sentir um homem independente da posição, da profissão e da religiosidade. Queria senti-los por todos os buracos, por todas as almas, por Deus! Queria senti-los...



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Cais da Língua

Ainda que triste sinto com frieza o vento passear por meu rosto. Consigo foi minha esperança e contigo veio minha tão merecida calma. Ainda dói ver o que em mim já é passado, ainda pula no meu peito aquele resto seu e vai continuar pulando até que você venha e o pare. Daqui a poucos dias será um novo ano, mas quase tudo em mim continua velho. Quem dera ter com força aquela antiga esperança, quem dera ter com força sua presença. Logo a mim que sempre fui tão sereno, o destino inventou de me testar. Logo eu que sempre senti ao máximo a diferença. Ta tudo passando e misturando, agora não sei mais quem passou e quem é pedra. A boca que tanto supliquei e a que me suplica são uma coisa só. Como pode meu Deus fazer isso? A culpa disso tudo não é minha, não sou réu e meu chão não é céu. Tudo queimando em mim.E cansado de mim registro tudo pra um dia ver que vivi, que toquei a vida sem luvas, sem capas e vi a morte sentar-se ao meu lado pedindo um pouco de paz.


ps. nem sabia da existência desse texto. :p

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Cais da Língua

Antes que me permita
Antes que mal digas a hora prevista
Deixe-me ver por outros olhos
Por outros meios
O gosto de um pouco mais de vida, querida

Sendo inevitável sua visita
Vista-me
Não quero feridas

Nem quero saudades
Na verdade eu nem te quero

Mas já que é insistente e muito certa
Leve-me com cautela
Seja lá pra onde for
Já que o caso é levar
Já que o caso é partir
Que me partam os raios